Drª Niéde Guidon divulga carta que ela escreveu para o futuro

Publicado em 26/03/10 às 19:05

Em conversa com a Drª. Niède Guidon, a reportagem teve a oportunidade de pedir para ela escrever uma carta destinada ao futuro e presentes sanraimundenses e também herdeiros do Patrimônio Cultural da Humanidade que é o Parque Nacional Serra da Capivara, reconhecido pela UNESCO.

A professora descreve o que ela encontrou quando chegou em São Raimundo em 1973, a dificuldade de acesso e a fallta de infra estrutura, água, energia.

"Quando aqui cheguei, em 1973, a cidade não tinha nenhum banco, quando eu precisava de dinheiro tinha que ir a São João do Piauí que era já uma cidade muito mais avançada, tinha hotel inclusive. Mas não havia violencia como há hoje", disse a professora.

Esta carta serve para refletirmos sobre o presente e o que queremos para nosso futuro.

Confira na íntegra a carta:

Caro Capivarense do futuro,

Capivarense são todos aqueles que, pela proximidade geográfica, tem relação direta com o Patrimônio Mundial que é o Parque Nacional Serra da Capivara, mas também engloba todos os piauienses e tomara que todos os brasileiros se sintam involucrados, donos responsáveis de tanta riqueza.

Já se passaram 10 anos do século XXI e não sei em que tempo você estará lendo esta carta.

Não sei se a ortografia mudou mais uma vez, nem sei se a leitura ainda existe. Mas tenho certeza de que a tecnologia terá achado um sistema de comunicação que faça com que possamos nos entender.

Um sistema de comunicação foi o que os homens pré-históricos nos deixaram, mas não temos a chave para decifrá-lo. Então, captamos da mensagem, a riqueza na variedade, aproveitamos sua estética para criar o vínculo com eles.

Dediquei muitos anos de minha vida à procura de vestígios do Homem do passado, achei suas ferramentas, propus hipóteses sobre seu modo de vida, sobre como foi interagindo com seu entorno durante milhares de anos.

Perto desses numerosos anos minha vida parece tão curta e mesmo assim, conheci o telégrafo, o telefone a manivela e hoje, navego na Internet. Viajei de navio e hoje espero a finalização do Aeroporto Serra da Capivara.

E você? Imagino que lhe implantaram um “chip”, tudo ficou mais fácil, telefonar, pagar contas, comprar passagens, ser localizado....

Pensei em lhe escrever para contar como era a região quando vim pela primeira vez, há agora 40 anos e as modificações que fui vendo acontecer.

Em1970 aregião estava ainda muito isolada do resto do mundo, quase não havia estradas, nem meios de comunicação. Para mandar uma carta a entregávamos ao motorista do ônibus que ia a São Paulo. A saúde era precária e a educação limitada aos centros urbanos. Não havia bancos, nem justiça, o comércio quase inexistente.

As pessoas levavam vidas muito simples e ainda em comunhão com a natureza. Fui muito bem acolhida.

Os anos foram passando, as descobertas que fazíamos foram pouco a pouco mostrando ao mundo a existência desta região única e extraordinária.

O chamado progresso começou a chegar, foi aberta a estrada para Teresina, tivemos um primeiro posto telefônico, o fornecimento de energia elétrica que era por gerador na cidade de São Raimundo Nonato, foi modernizado. Nos anos 80 chegou o telefone que inicialmente tinha três números.

Hoje localmente muitas coisas mudaram e também a nível mundial, falamos em aquecimento global e vemos catástrofes naturais que se sucedem e me pergunto quanto mais terão mudado na sua época, quase não consigo imaginar.

Inicialmente os Homens viviam como caçadores-coletores. O saber era passado dos adultos para os jovens, igualmente. Todos executavam todas as tarefas, todos eram iguais. Temiam a natureza, reconheciam seu poder.

Em um momento dado de nossa história, alguém imaginou como fazer para garantir um poder mais duradouro, que não dependesse unicamente dos recursos biológicos.

Nesse momento os Homens começaram a se diferenciar. Aqueles que somente sabiam conviver com a natureza e aqueles que constituíam uma casta privilegiada, com poder assegurado religioso ou econômico.

Não vou entrar em detalhes, imagino que em algum tipo de biblioteca voce poderá encontrar informações de como a vida do Homem foi ficando cada vez mais dependente dos poderosos que usando a tecnologia dominam o mundo, pelo menos este meu atual.

Todos estes processos acarretaram a destruição da beleza do mundo, o prazer da vida.


Em conversa com a Professora Drª. Niède Guidon, a reportagem teve a oportunidade de pedir para ela escrever uma carta ao futuro e presentes sanraimundenses e também herdeiros do Patrimônio Cultural da Humanidade que é o Parque Nacional Serra da Capivara, reconhecido pela UNESCO.

Poucos dias atrás vivi uma situação muito sintomática, uma senhora, moradora da mega cidade de São Paulo, se emocionou aqui, quando viu, pela primeira vez na sua vida, a Lua saindo no horizonte. Pergunto-me se na sua época o Sol que os aquece é o mesmo que vejo brilhar ou foi substituído por algo artificial?

Enquanto escrevo, estendo o meu olhar pela vastidão do que ainda é um pedaço do paraíso - a Serra da Capivara. Espero que voce ainda possa ver o que vejo, espero que aqueles que insistem em tentar convencer os homens que qualidade de vida significa ter um celular, não tenham conseguido destruir este legado e que todos tenham uma vida digna, sejam educados, tenham saúde e prazer de viver, porque souberam compreender a mensagem dos homens pré-históricos.

Niède Guidon
São Raimundo Nonato, 24 de março de 2010

Fonte: Saoraimundo.com
 

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